Colecionar faz bem às crianças?
- Telma Ceolin
- 23 de mai. de 2023
- 5 min de leitura
A ciência diz: sim!
Por Telma Ceolin,
Coordenadora Regional Centro-Oeste da
Sociedade Numismática Brasileira e
idealizadora do projeto Colecionador Mirim.
Muitos pais observam que seus filhos, ainda pequenos, adoram juntar e selecionar coisas. Querem levar para casa conchinhas da praia, pedrinhas, insetos diferentes, tampinhas de garrafa, e várias outras coisas. Também apreciam ter vários modelos de um mesmo tipo de brinquedo, como bonecos, dinossauros, carrinhos, figurinhas, selos, e gostam de fazer trocas e organizar seus objetos em prateleiras, caixas e álbuns.

E porque tantas crianças gastam seu tempo assim? Temos uma resposta simples: elas se divertem com isso!
Mas o que significaria esse interesse espontâneo das crianças por colecionar coisas e qual o sentido de estimularmos essa prática?
Assim, o Projeto Colecionador Mirim, tendo como objetivo incentivar crianças e jovens para o colecionismo, foi à procura de respostas, e encontrou algumas curiosidades que gostaria de compartilhar com vocês. Não é um artigo científico mas traz algo das ciências para nos ajudar a refletir.
Iniciamos por observar uma enquete, encontrada há cerca de um ano no site internacional Babycentre.com, o qual presta orientações a milhares de pais em todo o mundo. As perguntas eram se os filhos colecionavam e o quê. Dentre 1453 entrevistados, 79% informaram que as crianças colecionavam alguma coisa, sendo desses, 39% objetos da natureza, 27% brinquedos e 13% itens categorizados. Supondo que objetos da natureza sejam aqueles obtidos espontaneamente pelas crianças, já vislumbramos aí uma possível tendência natural ao colecionismo. De todo modo, fomos buscar um pouco do que dizem os especialistas.
A psicóloga americana Niroshika DeSilva, por exemplo, especializada em psicologia infantil e relações familiares, em entrevista à jornalista Jessica Booth, 2020, relata que isso vem de um instinto: "a espécie humana aprendeu habilidades de caça e coleta de suprimentos necessários para a sobrevivência. Da mesma forma, as crianças podem coletar e acumular brinquedos como uma forma de estratégia de sobrevivência." Ou seja, o ato de colecionar pode estar ligado à necessidade subconsciente de sobrevivência, o que nos faz pensar sobre os motivos que nos levam a colecionar o que quer que seja.
Interessante notar que essa proposta de vocação natural para o colecionismo vem ao encontro de alguns outros dados científicos importantes, tais como a existência de achados arqueológicos cujas características sugerem tal pratica desde os primórdios da humanidade. Demonstram o interesse na guarda de objetos que pertenceram aos antepassados, e registros de conotação emocional dessa prática por meio de rituais. Encontramos conteúdos importantes sobre o assunto no blog português citaliarestauro.com.
Associados à esta idéia, vimos também aspectos psiquiátricos importantes ao entendimento do colecionismo. Mas, o que a psiquiatria teria a ver com isso? Já parou pra pensar que tanto as crianças em suas brincadeiras, como os adultos colecionadores, vibram ao conquistar algo que falta e está procurando há tempos? Não parece, mas há algo mais complexo por detrás desta aparente brincadeira e seu imenso prazer.

Senão, vejamos: uma pesquisa usando ressonância magnética sobre uma parte do cérebro chamada Núcleo Accumbens, relacionada com a recompensa, o prazer, o vício, o risco, o medo ou a reação agressiva, demonstra que há mais atividade daquela região quando uma recompensa é anunciada do que propriamente quando ela é recebida. Ou seja, a perseguição do objetivo causa mais emoção do que o próprio momento de obtenção do objeto desejado. Algo a se pensar, não é?!
Assim, ficamos com tais reflexões, aproveitando a oportunidade para reforçar os desdobramentos educativos e culturais do colecionismo e sua contribuição na formação infantil, nos aprendizados e na construção da identidade própria, sendo essas conclusões praticamente unânimes nos estudos que abordam os méritos do colecionismo na infância:
Responsabilidade - a coleção dá para as crianças um sentimento de orgulho e posse. De cuidar do que é seu. E você pode incentivar esse entusiasmo ao adquirir uma estante colecionar, álbuns e caixas para que as preciosidades possam ser devidamente armazenadas;
Conexões Sociais - As crianças colecionadoras têm um assunto a mais para conversar com seus amigos. Além disso, as trocas fazem parte do colecionar. Assim elas criam laços e ampliam seu círculo de amigos;
Habilidades escolares - segundo o Guia Prático dos Temas Contemporâneos Transversais elaborado pelo MEC (2020) que foi agregado aos Parâmetros Curriculares Nacionais, publicados em 1997, é importante para a criança abordar os assuntos contemporâneos para melhoria da aprendizagem de temas que são relevantes para sua atuação na sociedade. Exemplo: Moedas Olímpicas 2016.
Assim, entendemos porque colecionar dinossauros, uma simples brincadeira que caiu no gosto da maioria das crianças, como outros objetos pelos quais tenham afinidade, vai naturalmente despertar o interesse do estudo sobre eles, enriquecendo o repertório cultural dos pequenos e despertando o interesse na prática do colecionismo, podendo evoluir para outros objetos de mais complexidade, dentre os quais, a filatelia e a numismática.
Aliás, por falar em dinossauros, registramos a magnífica declaração nosso Colecionador Mirim Kayo Sousa, de Itaboraí (RJ), com 8 anos de idade, que também já coleciona cédulas e moedas:

"Quando eu tinha 4 anos, eu comecei a juntar dinossauros. E nesse juntar dinossauros, eu percebi que poderia voltar milhões e milhões de anos, sem sair de casa. Com o passar do tempo, eu descobri que os dinossauros tinham modelos e formas diferentes. Aí eu descobri uma coleção.".......
"Eu acho que colecionar faz bem pra minha imaginação. Eu posso voltar a 100 anos atrás e ver que D. Pedro tirou uma foto. E como eu sei que ele tirou aquela foto? Porque tem uma nota daquilo, tem uma moeda daquilo. Eu sei que o Brasil foi colônia de Portugal"...
"Tudo o que tem naquele círculo faz bem pra minha imaginação....."
Cabe ressaltar a importância da participação dos pais nesse processo, compreendendo e incentivando essa forma de brincar especial e integradora que é o colecionismo infantil.
Para ilustrar, segue uma mensagem recebida do Professor Natal Silva, educador, colecionador numismata e pai do Colecionador Mirim Natan Silva. Disse ele, que faz um excelente trabalho educativo no Recanto das Emas, Distrito Federal: "A diversão é essencial para a a formação e felicidade do ser humano. E quando podemos aliar diversão com conteúdo rico e que favorece a aprendizagem não tem preço. A Numismática é bela."

Projeto Colecionador Mirim é um projeto educativo e cultural criado em 2019, tem o apoio da Sociedade Numismática Brasileira, de várias associações numismáticas regionais, da Associação Amigos do Museu de Valores do Banco Central, do Clube da Medalha da Casa da Moeda do Brasil, do Museu Eugênio Teixeira Leal - Memorial do Banco Econômico, e de inúmeras empresas numismáticas e colecionadores de várias localidades do país.
Sua realização se dá a partir de eventos no perfil no Instagram @colecionador_mirim_, participação em encontros e congressos, oficinas arte-educativas infantis e na criação de produtos paradidáticos, especialmente o livro infantil Dinheiro no Tempo - História do Dinheiro com Arte e Diversão para Crianças.
Nosso slogan: "Todo colecionador começa pequeno. Uma menina colecionadora é espetacular!"

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